A “página goética” é mencionada e vista em muitos grimórios e alfarrábios que abordam a Goetia. A maioria deles atribui sua origem ao livro conhecido como “Pactum”, cuja autoria é desconhecida, assim como a data certa de suas primeiras edições. Diz-se que a explicação dos caracteres é dada no antigo grimório e que sua fórmula revela um dos segredos fundamentais da Goetia.

Devemos ter o cuidado especial de observar que a palavra “Goetia”, nesse contexto, representa muito mais do que o conjunto de operações e de “Espíritos” presentes nos textos atribuídos a Salomão, como o Lemegeton ou as Clavículas, por exemplo. Podemos dizer que o termo “Goetia” representa e encerra em si as Artes Negras e o Caminho da Mão Esquerda, livre de contaminações “brancas” para os Magos Goéticos contemporâneos. Já a palavra “Espírito” é empregada como sinônimo para “Demônio” em sua acepção mais ampla e não “cristianizada”. Precisamos lembrar também que os primeiros registros escritos da palavra “Goetia” datam de até cem anos antes do início da era vulgar na Grécia antiga.
A maioria dos caracteres que compõe a “página goética” provém do Alfabeto dos Magos, criado por Paracelso (1493-1541 e.v.) no século XVI. Trata-se de um alfabeto de substituição de uso similar ao do Malachim. O texto da “página” foi inteiramente redigido em espanhol. Apresentamos abaixo o texto original, caractere por caractere e sua tradução:

“La Cruz: Simboliza al Hombre Desnudo, es decir limpio de toda impureza”.

“A Cruz: Simboliza o Homem Despido, ou seja, limpo de toda impureza”.

“Serpiente Luminosa: Simboliza ala Mujer Desnuda o sea nuestra Madre Eva”.

“Serpente Luminosa: Simboliza a Mulher Despida, ou seja, nossa mãe Eva”.

“El Caduceo: Este jeroglífico representa los órganos genitales del Hombre”.

“O Caduceu: Este hieróglifo representa os órgãos genitais do Homem”.

“El Cáliz: Este jeroglífico representa el órgano feminino”.

“O Cálice: Este hieróglifo representa o órgão feminino”.


Não é possível definir com precisão a data em que essa página foi escrita, mas pudemos analisar edições raras e antigas de livros da primeira década do século passado que já apresentavam a “página goética” como ilustrada acima, o que nos faz supor que essas inscrições tenham sido feitas o mais tardar no século XIX. É importante observar que o idioma utilizado foi o espanhol e que o texto, depois de transliterado caractere por caractere, apresenta uma linguagem simples e direta, ao contrário dos textos iniciáticos e misteriosos que encontramos com maior freqüência nas bulas alquímicas e mágickas.

O autor também é desconhecido, mas podemos afirmar com certo grau de precisão que ele conhecia os mistérios encerrados nos elementos descritos e que era preciso encobri-los, talvez para sua própria segurança, de maneira que seu significado não se perdesse ao longo dos séculos.

A Cruz, a Serpente, o Cálice e o Caduceu são conhecidos como os quatro elementos do ritual Goético Maior.

O ritual Goético Maior não pode ser entendido ou visto como uma prática isolada dentro do Caminho da Mão Esquerda e da Antiga Goetia, o termo é utilizado para revelar os elementos ritualísticos principais num caminho Negro em Essência, sem a submissão pretensiosa dos poderes Infernais aos poderes celestiais ou vice-versa. Ele denota um caminho de consecução mágicko e gnóstico onde os operadores não se cercam de proteções “brancas”, sejam elas quais forem para adentrar em Sitra Ahra, para operarem literalmente dentro dos Túneis de Set ou para evocarem os Deuses mais Antigos. O ritual Goético Maior é aquele reservado aos “Nativos”, aos que não se envenenam para poder envenenar, mas aqueles que são o próprio veneno.

O texto da “página goética” revela também que a dimensão sexual dos mistérios era conhecida e utilizada conscientemente pelos magos goéticos antigos. Muitos ocultistas, obviamente influenciados pelo frígido e impotente pensamento judaico-cristão, acreditavam que os mistérios sexuais tinham sido pervertidos e corrompidos por Magos Negros que se entregavam a lascivos ritos profanos e criminosos.

É realmente incomum encontrarmos referências explícitas à sexualidade aplicada para fins mágickos no ocultismo ocidental durante esse período.

Façamos então breves exposições sobre os Quatro Elementos, como descritos na “página goética”.

A Cruz

A Cruz representa o Homem Nu e, ao contrário do que muitos supõem, não se trata de um símbolo cristão. Poder ser compreendida como a representação de princípios cósmicos revelados geometricamente pelos números 2, 4, 5, 10, 55 e 11, entre outros:

• Duas linhas perpendiculares entre si que se multiplicam através de uma dupla divisão em quatro linhas;
• O intercepto das duas linhas forma o ponto que representa a contração essencial máxima, como em Hadith. É a Essência do Mago Negro;
• O 4 representa a Forma e a quarta dimensão de poder – é como o quarto pé da cadeira de base quadrada, sem o qual ela não ficaria em pé;
• O quadrado é a próxima figura simples após o triângulo – é o número da adaptação e da forma;
• A cruz divide o círculo (símbolo do infinito) em quatro partes iguais; quatro quartos, ou seja, um inteiro;
• O quaternário está relacionado aos nomes sagrados de quatro letras que representam a divindade – llyh;
• Os pitagóricos atribuíam significância ao quaternário, pois, segundo eles, todos os fundamentos das coisas naturais, artificiais e divinas são quadrados. O número quatro é a fonte perpétua da natureza e chave para a Divindade;
• De um ponto comum partem quatro segmentos de reta divididos por 4 ângulos retos = o ponto (1) + (4) = 5;
• 1+2+3+4=10= o número do ciclo eterno e da criação;
• O número quatro era associado a Hermes, cujo principal símbolo é o Caduceu que na página goética é o símbolo dos órgãos genitais masculinos;
• A Cruz é um símbolo de Tiphareth (6° Sephirah);
• O quaternário pode ser apreendido nos pontos cardeais, nos animais que compõe a esfinge, nos querubins, nas hierarquias das hostes infernais, nos elementos, nas estações do ano, nos quatro eixos do mundo, nas qualidades dos antigos filósofos (quente, úmido, frio e seco), nos gêneros de misto perfeito (animais, plantas, metais e pedras), nas virtudes morais (justiça, moderação, prudência e força), nos arquidemônios que reinam sobre os quatro ângulos do Mundo, nos rios do inferno...

A Serpente Luminosa

A Serpente Luminosa é o símbolo da Mulher. Acima da cabeça da serpente há uma pequena chama que demonstra a onisciência criada e criativa, a inteligência superior e a sabedoria. O elemento é a Mulher Nua, identificada como Eva por se tratar de um ser humano em sua constituição, porém caracterizada pelos atributos da Serpente.

A Serpente é um dos mais importantes símbolos primordiais e representa a mulher em sua fase lunar, ou seja, durante a menstruação.

Numa antiga lenda judaica Eva começou a menstruar numa terça-feira, ocasião em que se transformou em uma serpente. Terça-feira é o dia de Marte, divindade do derramamento de sangue. Em certas tradições hindus, a terça-feira é consagrada à Deusa Kali.

Nas tradições Tifonianas e Draconianas a serpente simboliza o renascimento e a transformação contínua em alusão às suas trocas de pele. É também um glifo associado à Lua e à Daath devido à Serpente de Oito Cabeças que habita o Abismo.

A Serpente é o Veneno que pode engendrar a Morte e a Arte de enganar uma presa até suas próprias mandíbulas. É um símbolo de longevidade saudável e de ameaça mortal perene. É o réptil que se move ligeiramente sem ser ouvido e sem possuir patas.

No antigo Egito a Serpente era um símbolo dos períodos femininos e era um dos emblemas da Deusa (Ta-Urt, Ape, Tiphon), assim como o Chacal e o Crocodilo. Apep era o Dragão-Serpente que habitava a escuridão.

As diversas interpretações da tentação de Eva e os escritos bíblicos nos conduzem a outras serpentes, demônios ou divindades associadas: Nahash, Samael, Leviathan e Lilith.

A Serpente está associada ao arquétipo de Lilith e aos poderes sobre-humanos da Mulher Escarlate. É malícia, astúcia, força, inteligência, sedução, veneno, perigo e deleite.

Devemos observar também que a Serpente representa o isolamento e a capacidade de sobrevivência em ambientes absolutamente inóspitos como o Deserto de Set, por exemplo.

O Caduceu

Na página goética o Caduceu representa o Lingam, os órgãos genitais masculinos, o Falo ereto que penetra o “mundo desconhecido”. O símbolo é utilizado há mais de 4000 anos e está presente em tradições sumerianas, hindus e gregas.

Na mitologia grega o caduceu pertencia inicialmente a Apolo que o deu a Hermes em troca da lira, desde então o Caduceu passou a ser o principal símbolo de Hermes e de Mercúrio. O Caduceu é um símbolo da astúcia, da inventividade e da sabedoria e é através dele que Hermes guiava as almas dos grandes homens pelas regiões de luz e de trevas.

O Caduceu é formado por um cetro (o Lingam) no qual estão enroscadas duas Serpentes que representam as correntes “opostas” de OB (serpente da direita) e OD (serpente da esquerda), restando ao cetro o AUR. As serpentes representam também o Obeah e o Wanga.

Os nadis (canais) Ida e Pingala são associados às serpentes e Sushuna ao cetro. Ida se conecta ao testículo esquerdo e Pingala ao testículo direito. Tais relações o associam à Kundalini.

O Cálice

O Cálice representa a sagrada Yoni e é o símbolo mágicko do Entendimento e um dos símbolos de Binah (3° Sephirah). O Cálice é a arma elemental da Água e do Sangue. Nele são administrados e misturados os elixires medicamentosos ou envenenadores.

A superfície do líquido que o Cálice contém é um plano que oculta sua profundidade numa abstração de uma dimensão aparentemente dual. Quanto mais concentrado é o conteúdo, mais difícil é apreender o que está abaixo do plano, da Abstração, da Ilusão.

O plano é perfurado pela Vara do Caduceu e a borda do cálice é um círculo, dessa forma a Vontade (Finita) comunga com o Infinito (Círculo).

O cálice é utilizado como repositório, mas também emite determinadas secreções em circunstâncias especiais provocadas ou procuradas, é por onde flui o sangue lunar. É um glifo para o recipiente que recolhe o orvalho na tradição alquímica.

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